Leitura de exposições | “A você mostrarei” e “Cadernos de Desenho”, diálogo à distância

Na semana passada, visitei duas exposições: “A você mostrarei”, no Elefante Centro Cultural, coletiva de 16 artistas, e “Cadernos de Desenho”, individual de Sérgio Rizo, na Caixa Cultural. Essa última ainda em cartaz.

Não por acaso, as montagens dividem espaços expositivos muito distintos. “A você mostrarei” desenvolve-se nos dois andares pouco formais do Elefante, um espaço cultural de natureza autônoma, declaradamente destinado a projetos artísticos “fora do ambiente e da estrutura de custos do cubo branco” das galerias institucionais e comerciais. Já “Cadernos de Desenho” expõe seus riscos precisos nas estruturadas instalações do centro cultural da Caixa Econômica Federal.

São escolhas curatoriais adequadas. Enquanto a mostra coletiva do Elefante – integrada por Adriana Vignoli, Antônio Obá, Camila Antunes, Débora Passos, Dora Smék, Gilvan Barreto, Gustavo Silvamaral, Íris Helena, JÁ.CA – Centro de Arte e Tecnologia, Jefferson Lourenço, João Trevisan, Marcone Moreira, Matias Mesquita, Moisés Crivelaro, Paul Setúbal e Yuri Firmeza – aborda diversas camadas dos desejos, dúvidas, estímulos e angústias dos artistas em face da contemporaneidade, “Cadernos de Desenho” volta-se para a atitude renascentista do exímio domínio da técnica e de sua aplicação imaginativa.

Sutura de Concreto, Adriana Vignoli
Sutura de Concreto, Adriana Vignoli
Capital, Íris Helena
Capital, Íris Helena

Valendo-se de linguagens e suportes diversificados, que transitam de “Sutura de Concreto”, meticulosa e minimalista instalação de Adriana Vignoli, à irônica “Capital”, de Íris Helena, que imprime a imagem de 24 locais de Brasília sobre tickets de compra termossensíveis da bandeira Cielo (céu, em italiano); da pintura lúdica e eloquente de “Olha a cobra!”, de Antonio Obá, à pungente foto-denúncia de Gilvan Barreto na premiada série “Postcards from Brazil”, que se apropria de cartões postais e deles subtrai retângulos para evocar os militantes de esquerda assassinados pela ditadura militar, “A você mostrarei” cativa o espectador. A curadoria sensível de Cinara Barbosa enreda o visitante nas questões que movem a produção e as expectativas dos artistas contemporâneos.

Olha a cobra!, Antonio Obá
Olha a cobra!, Antonio Obá
Postcards from Brazil, Gilvan Barreto
Postcards from Brazil, Gilvan Barreto

Longe da idealização do artista como um criador iluminado de uma obra mágica, o que conta na narrativa multifacetada de “A você mostrarei” é a consciência crítica desse artista, atento às contradições históricas e a suas expressões no tempo presente. Mas, a partir dessa atitude de resistência e desse desejo de transformação, o que afinal resulta da criação artística de matiz crítico? Ou, como indaga Cinara Barbosa no texto curatorial, “o que se move nesse mundo com o que criamos?”.

Estudo anatômico XXX, Sérgio Rizo
Estudo anatômico XXX, Sérgio Rizo
Estudo anatômico XXXIV, Sérgio Rizo
Estudo anatômico XXXIV, Sérgio Rizo

“Cadernos de Desenho”, por outro lado, revisita os fundamentos da expressão artística. Dividida em duas partes que se complementam, “Arte e Anatomia” e “Cidade dos Anjos”, sob a pedagógica curadoria de Oto Reifschneider, a exposição se dedica a exaltar a relevância e a necessidade de nutrir o talento artístico com a dedicação aos estudos e à prática permanente de exercícios. Atraído pelo acesso aos cadernos de desenho de Sérgio Rizo – “elaborações íntimas” que o estímulo do curador retirou do domínio privado do artista –, Oto Reifschneider organizou a mostra com um ânimo assumidamente didático.

Cidade dos Anjos XVI, Sérgio Rizo
Cidade dos Anjos XVI, Sérgio Rizo
Cidade dos Anjos XIX, Sérgio Rizo
Cidade dos Anjos XIX, Sérgio Rizo

Na primeira parte, estudos de anatomia, que transitam entre a representação de partes corporais e a dinâmica postural de modelos vivos, põem a nu o domínio técnico do artista. Na segunda, os exercícios práticos de representação veiculam sua expressão em construções simbólicas. Desenhos híbridos, que reúnem pessoas, animais e maquinários, expandem a imaginação. Anjos caídos, fragilizados, exauridos, com asas inúteis ou perdidas, carentes de artefatos mecânicos para se manterem em suspensão, aludem à própria condição humana.

Distantes no tempo e no espaço, na atitude e nos meios, no discurso e nos objetivos, se “Cadernos de Desenho” encanta, “A você mostrarei” provoca. Uma se volta ao passado para escavar referências imperdíveis. Outra chacoalha o presente para indagar sobre o futuro que se pode perder.

Aparentemente muito apartadas, ambas se encontram na realização do desejo imanente a todo/a artista: o de propor diálogos e encontrar interlocutores.

Esse texto é uma colaboração de José Roberto Bassul e foi produzido durante a disciplina História da Arte Moderna e Contemporânea, ministrada por Raisa Ramos, na Pós-Graduação Lato Sensu em Fotografia como Suporte para a Imaginação.

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