O trabalho político e necessário das Guerrilla Girls

As Guerrilla Girls (GG) são um grupo de ativistas feministas que “usam fatos, humor e imagens ultrajantes para expor os preconceitos étnicos e de gênero, bem como corrupção na política, na arte, no cinema e na cultura pop”.  Formado em 1985, o grupo de ativistas anônimas, iniciou sua militância após protestos em resposta a uma exposição no Museum of Modern Art (MoMa), em Nova York, em 1984. Elas utilizam máscaras de gorilas e pseudônimos homenageando mulheres artistas. O anonimato mantém o foco nos problemas e longe de quem poderiam ser: podem ser qualquer um e estar em todos os lugares.

Fig. 01 As vantagens de ser uma artista mulher
Fig. 01 As vantagens de ser uma artista mulher

As GG já fizeram centenas de projetos (cartazes, ações, livros, vídeos, adesivos) em todo o mundo, incluindo Bilbao, Islândia, Istambul, Londres, Los Angeles, Cidade do México, Nova York, Roterdã, São Paulo e Xangai.  Em 2017 elas estiveram no Brasil, na primeira exposição individual do grupo, com uma retrospectiva de 116 trabalhos, incluindo dois novos cartazes em português, baseados nas obras mais conhecidas do coletivo. Esses dois cartazes tratam das dificuldades de ser uma artista em um mundo dominados por homens brancos: As vantagens de ser uma artista mulher (fig. 1) (1988/2017), As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met. Museum? (1989) e, agora, o recente, no MASP? (fig. 2)  (2017). No primeiro, elas trazem uma ironia sobre a dificuldade que é ser uma mulher artista dentro do sistema, no último, aborda o contraste entre o pequeno número de artistas mulheres comparado ao grande número de nus femininos da coleção em exibição no Metropolitan Museum de Nova York (5% e 85% em 1989, e 4% e 76% em 2012) e no MASP (6% e 60% em 2017). Estes dados confirmam a afirmação de Käthe Kollwitz, uma das integrantes do grupo:  “É muito mais fácil para uma mulher estar pelada numa exposição do que mostrar seu trabalho como artista no mesmo espaço”.

Fig2. As mulheres precisam estar nuas para entrar no MASP?
Fig2. As mulheres precisam estar nuas para entrar no MASP?

O discurso que emerge da sequência de cartazes nestes 33 anos da atuação do grupo é surpreendente, pois a arte que essas ativistas iniciaram na década de 80 é extremamente atual, e os problemas não foram superados. Trazê-las para o contexto de museu é uma forma de ampliar o debate e de fazer uma intersecção entre ativismo, política, cotidiano e arte. “Os pôsteres tornaram-se uma fonte política na arte: depois de vê-los, nunca mais você vai entrar em um museu sem estar atento a essa discriminação”, acredita Käthe.

guerrila3

O coletivo utiliza-se do humor e do design para passar uma mensagem bastante direta e atual. Impressiona ver que mesmo diante de muitos anos de ativismo, pouca coisa mudou, como podemos ver em outra obra que chama atenção: dois cartazes com o número de mulheres que realizaram exposições individuais nos museus de Nova York em 1985 e 2015 (fig.3).

O trabalho das GG nos leva a refletir sobre a invisibilidade que a mulher teve na história  e traz uma nova perspectiva para a arte, política e cultura na qual se busca pensar em um maior equilíbrio entre homens e mulheres, além disso, se articulam com questões mais abrangentes e profundas em relação ao eurocentrismo, ao privilégio branco, à heteronormatividade e ao domínio masculino.  

É muito preocupante constatar que depois de mais de 30 anos, ainda estamos muito distantes de ter igualdade de oportunidade e de visibilidade, particularmente no tocante a artistas de ascendência africana, bem como de contextos sociais menos privilegiados. As culturas, ideias e necessidades de cada grupo são diferentes e às vezes até mesmo conflitantes, por isso, é importante trabalhar em direção a uma aliança, não fundindo os discursos em um único e homogêneo, mas desenvolver práticas que criem espaços e plataformas para que muitos possam expressar suas ideias  e que estas, possam chegar até às demais pessoas de forma mais igualitária e representativa.

Esse texto é uma colaboração de Naiara Pontes e foi produzido durante a disciplina História da Arte Moderna e Contemporânea, ministrada por Raisa Ramos, na Pós-Graduação Lato Sensu em Fotografia como Suporte para a Imaginação.

Siga o f/508 nas redes sociais:

facebook

instagram

pinterest

twitter