Documentário problematiza violência das “cantadas”

por Raisa Pina

A prática constante feita por homens cria uma hostilidade sectária que afirma às mulheres que elas não têm direito à cidade

Exibido na última segunda (12) no Espaço f/508 de Fotografia, em uma sessão organizada pelo Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF em parceria com o local anfitrião, o filme Chega de Fiu Fiu surgiu como campanha online e se expandiu para as telas dos cinemas ao revelar a violência existente por baixo de uma prática comum do cotidiano da sociedade: a “cantada”.

A prática é tratada frequentemente como romantização do assédio machista, está na base da cultura do estupro e se configura como negação do direito da mulher à cidade. Partindo de relatos registrados ao longo de cinco anos na plataforma virtual homônima, o documentário protagoniza três mulheres reais: Rosa Luz, Raquel e Teresa, cada uma habitante de cidades distintas, mas todas vítimas do mesmo inimigo.

Os discursos de medo e revolta recolhidos pelas diretoras Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão são unânimes ao apontar o problema: o mesmo homem que chama uma mulher desconhecida de “gatinha” na rua pode ser o estuprador da esquina seguinte. O violentador é geralmente inocentado de seu ato pelo imaginário social que ainda enxerga na mulher a errada por sair do espaço que lhe pertence (o doméstico) e transitar pelo espaço tradicionalmente masculino (o público).

Se historicamente as mulheres foram relegadas ao âmbito doméstico, falar sobre questões pessoais e privadas é potente por visibilizar os casos e criar uma rede de identificação cada vez maior. A partir do conhecimento de histórias semelhantes, as mulheres conseguem se organizar e fortalecer suas reivindicações por direitos.

Os depoimentos são intercalados por dados de pesquisas sobre violência contra a mulher, especialmente referentes às peculiaridades do assédio nas ruas, coletadas pela própria plataforma online Chega de Fiu Fiu. 90% das entrevistadas já trocaram de roupa por medo de assédio, 83% não gostam de cantadas, 85% já sofreram com “mão boba” e 81% já deixaram de fazer alguma coisa por medo de assédio.

O documentário também traz cenas gravadas secretamente durante percursos nos espaços públicos, feitos por uma mulher que flagra diversos momentos reais de “cantadas” e expõem a invasão agressiva da prática. As diretoras ainda acrescentaram à obra entrevistas com referências feministas e realizaram uma roda de conversa de homens sobre o que é ou deixa de ser aceitável no contato com mulheres. Em anos de proibições de discussão de gênero nas escolas e de ameaça de retrocessos que tangem direitos das mulheres no âmbito político, este filme se torna uma peça educativa necessária.

Plataforma: chegadefiufiu.com.br
Para acompanhar as próximas exibições: facebook.com/chegadefiufiu

 

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