Crônica sobre o Festival de Cinema de Brasília

Ninguém passa ileso ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: não é preciso saber qual é o longa favorito ao Prêmio Candango ou qual foi o tema do último debate acalorado que aconteceu no Cine Brasília. De algum jeito, todo mundo fica – no mínimo – sabendo que o Festival tá rolando e digo isso com propriedade de testemunha ocular. Aproveito logo o primeiro parágrafo do texto para assumir minha culpa: aos 24 anos, nunca fui ao Festival de Cinema.

Em uma cena simbólica do filme “Amarelo Manga” (2002), Kika (interpretada por Dira Paes) percorre a calçada até um ponto de ônibus.

Na primeira edição, em 1965, minha mãe ainda morava no Rio de Janeiro e meu pai tinha só 1 ano; não viram Arnaldo Jabor e Fernanda Montenegro debutarem na telona. Devem ter ouvido falar que o Festival foi censurado por três anos no começo da ditadura e que, depois disso, voltou com fôlego renovado e não ficou um ano sequer sem ser realizado. Nunca perguntei, mas imagino que, a partir daí, eles já devem ter ido em várias edições, já que acompanham de perto o cinema nacional.

Nessas 50 edições que antecedem a de 2018, muitos cineastas importantes viram seus nomes ganharem escala no país graças a sua presença no Festival, que exibe somente filmes inéditos. O maior ganhador do Prêmio Candango é Julio Bressane, com 4 premiações. Além dele, por aqui passaram filmes e diretores aclamados, como Joaquim Pedro de Andrade (com O Homem do Pau-Brasil), Suzana Amaral (com A Hora da Estrela), Eduardo Coutinho (com Santo Forte, em 1999, e Peões, em 2004), Cláudio Assis (com Amarelo Manga, em 2002, e Baixio das Bestas, em 2006).

O grande vencedor do ano passado foi “Arábia”, de Affonso Uchoa e João Dumans. Contudo, o filme acabou dividindo os holofotes com os debates que sucederam à sessão de estreia com “Vazante”, de Daniela Thomas. O filme, que se passa no século 19 e aborda o período da escravidão no Brasil, foi criticado pela falta de protagonismo e desenvolvimento dos personagens negros. A cobertura do da última edição feita pelo Nexo dá conta do que pautou as discussões:

“Em Brasília, embora nem todos os filmes estivessem ligados diretamente à questão, a abertura feita com a exibição e discussão de “Vazante” acabou por dar o clima do festival. Os problemas apontados no filme trouxeram à tona esse aspecto, já que Thomas é branca.”

A ótica dos debates passa pelo termo “lugar de fala”, comum em discussões nas redes sociais por militantes de movimentos feministas, negros ou LGBT. A edição passada foi a primeira, em 50 anos, que contou com diretoras negras na mostra competitiva: as duas diretoras foram premiadas Tanto Glenda Nicácio, diretora do longa “Café com Canela” quanto Jéssica Queiroz, diretora do curta “Peripatético”, foram premiadas. A complexidade das discussões pode ser entendida nos artigos de Glenda Nicácio e Yasmin Thayná.

Café com canela

As palavras do crítico Juliano Gomes ao fim da edição passada foram uma feliz profecia: “‘as placas tectônicas” do cinema brasileiro estão se mexendo”. Este ano, o Festival de Brasília recebeu o maior número de inscrições de filmes dirigidos por negros na sua história. Além disso, entre os 21 filmes selecionados para a Mostra Competitiva, 14 são assinados por mulheres. Vivemos numa época de mudança de paradigmas e holofotes; a busca incessante por maior representação e representatividade de minorias dá o tom do nosso tempo. Ver o cinema passando por essas mudanças estruturais é um resto de esperança.

É difícil determinar quanto tempo dura uma geração, mas é certo que o festival já passou pela vida de avós, pais e netos da cidade. Há uma teoria que assume que, atualmente, o intervalo de 25 anos é o necessário para separar uma geração de outra. Aos 24 anos, a minha hora chegou definitivamente. A expectativa de adicionar um Festival de Cinema no currículo e a certeza que grandes filmes e acontecimentos estão por vir nos próximos dias não me dão outra escolha: não vou passar ileso ao Festival de Cinema.